Três dias, seis abadias belgas e uma holandesa. Se você tem mais tempo, vale seguir as dicas de lugares extras para visitar 

Não importa se é sua primeira, segunda, terceira ou décima vez na Bélgica. Visitar as abadias trapistas, responsáveis pela produção de rótulos icônicos é uma das coisas que você, nobre cervejeiro ou cervejeira, precisa fazer antes de morrer.

As abadias trapistas fazem parte da Ordem Cisterciense da Estrita Observância que preconiza, dentre outras coisas, que as obras do monastério precisam estar diretamente relacionadas a comunidade onde estão. Por isso há produção de cerveja em todas elas, com lucro revertido à comunidade.

A Bélgica é um país minúsculo. Pra você ir de norte a leste, depois sul e por ultimo oeste você levaria aproximadamente 9 horas de carro, sem parar. Isso é o tempo que eu levo pra visitar minha mãe que vive a 500km da minha casa.

Dessa forma, não perca tempo. Reserve 3 dias da sua viagem para fazer esse roteiro. Alugue um carro – de preferência com outra pessoa que saiba dirigir e que não irá beber – e se jogue na estrada. Se você tem mais tempo, pode conhecer outros lugares também. No roteiro por dia, adicionei alguns extras com dicas de mais cervejarias e bares para conhecer.

DIA 1

Rochefort

Rochefort fica no caminho para Orval. O monastério produz cerveja desde o século XVI. São três rótulos: Trappistes Rochefort 6, 8 e 10. O local é fechado e não recebe visitantes. A cervejaria também é fechada. Não há café, tap room, loja ou algum tipo de visitação. Vale apenas para passar, tirar uma foto, ver a fumaça saindo da chaminé da cervejaria e marcar um check na lista das trapistas.

Orval

A abadia que produz minha trapista preferida fica a umas duas horas de carro de Bruxelas. Eu começaria a viagem por ela. Saia cedo, encare as horas de estrada, faça uma parada estratégica em Rochefort e siga até o extremo sudeste para contemplar a beleza de um dos lugares mais lindos da Bélgica.

Orval produz uma única receita desde 1931, ano em que a cervejaria começou a funcionar. No café L´Ange Gardien, é possível beber a Petit Orval, uma versão da Orval com 4,5% ABV produzida para consumo dos monges da abadia. A cerveja tem um aroma alto de lúpulos frescos, leve frutado e um amargor pronunciado. Somente lá você conseguirá beber uma Orval com essas características.

Orval engarrafada há uma semana, um mês e um ano

Para experiência ficar completa, peça uma Orval de um mês e outra de um ano para fazer o comparativo. Você vai ficar surpreso com tanta diferença em tão pouco tempo. Para acompanhar, peça os queijos também produzidos na abadia. O café é grande e conta com um cardápio variado. Aproveite para almoçar no local. Quando for montar seu roteiro, lembre que o café não abre às quartas-feiras.

A cervejaria abre apenas duas vezes por ano e é preciso realizar um pré-cadastro para visitá-la (Link para esse ano aqui http://www.orval.be/en/opendoors/Open-door-days). O mosteiro e a igreja também são de acesso restrito e conseguem ser acessados apenas nos eventos abertos a comunidade.

É possível fazer uma visita as ruínas do antigo mosteiro e a loja da abadia. Os horários de funcionamento, que variam conforme a época do ano, estão disponíveis aqui http://www.orval.be/en/27/Discovery

Chimay

Outono na Abbaye de Scourmont

A uma 1h40 de Orval está Chimay. A cidade é a casa da Abadia de Scourmont, ordem responsável pelos rótulos Chimay Dorée, Rouge, Triple, Bleue e Grand Reserve.

Aberto a visitantes está o Espace Chimay, que conta com o Chimay Experience, uma espécie de museu interativo que conta a história da abadia, da cervejaria e dos rótulos; o Ponteaupré inn – bar, restaurante e albergue – e uma loja de souvenires.

O Auberge de Ponteaupré fica em cima do restaurante, os quartos são amplos, limpos e há uma geladeira recheada de Chimay para você beber enquanto descansa na banheira. Para reservar é preciso entrar em contato por e-mail. Todas as informações aqui http://chimay.com/en/auberge-de-poteaupre/

Degustação no Espace Chimay

O restaurante tem um menu bem variado, que inclui cervejas, os queijos produzidos na abadia, tapas, sanduíches, entradas, pratos principais e sobremesas. O cardápio é harmonizado, fácil de entender, e muitos dos pratos são feitos usando cerveja como ingrediente. Tudo delicioso. Os horários variam conforme as estações do ano. http://chimay.com/en/infos-pratiques/

Aproximadamente 5 minutos a pé do Espace Chimay, fica a abadia. É proibida a entrada de visitantes na cervejaria, mas os espaços religiosos são abertos ao público.

Locais extras: na região também é possível conhecer:

  • Achouffe
  • Fantôme
  • Abbaye de Rocs
  • Brasserie Dupont

DIA 2

Westvleteren

Partindo de Chimay, em duas horas você chega a Westvleteren. Responsável pelas Westvleteren 6, 8 e 12, a Abadia de Sint-Sixtus é parcialmente fechada ao público, mas o Café in de Vrede funciona todos os dias das 9h45 as 21h, exceto sexta-feira.

A Westvleteren 12 é considerada por muitos especialistas a melhor cerveja do mundo. No café, é possível degustar sorvete feito com ela (o melhor sorvete que você irá provar na sua vida, eu garanto) e queijos produzidos na abadia. Reserve um bom tempo para apreciar o extenso cardápio e as excelentes cervejas.

Junto ao café funciona uma loja onde é possível adquirir as cervejas, queijos, o patê de Westvleteren 8 (fabuloso, dos melhores que já provei na vida), geleias, camisetas, bonés, sacolas e uma infinidade de produtos referentes ao café, as cervejas e a abadia. As cervejas são vendidas em caixas com 6 garrafas e não é possível fazer um mix de produtos. As caixas disponibilizadas na loja são limitadas, por isso compre o quanto antes. Não deixe para hora de ir embora, porque é possível que você saia de lá sem cerveja.

Se o dia estiver ensolarado, aproveite para sentar na área externa com vista para os campos da Bélgica. A cervejaria é local proibido, mas é possível conhecer a abadia em alguns dias e horários específicos (https://sintsixtus.be/trial/prayer-times/).

Westmalle

A 2h30 de Westvleteren está Westmalle. A abadia e a cervejaria são fechadas ao público, mas o Café Trappisten, localizado exatamente em frente a rua de acesso a abadia, funciona diariamente das 10h à meia-noite. Lá, é possível degustar as deliciosas Westmalle Dubbel (direto da torneira), Westmalle Tripel e a exclusiva Westmalle Extra. A Extra é produzida apenas duas vezes ao ano e é de consumo próprio dos monges, servida à eles e aos visitantes do café. Trata-se de uma cerveja que utiliza a mesma levedura das demais, porém com 4,8% de álcool. Além disso, o espaço também serve a Westmalle Half & Half, metade dubbel e metade tripel, uma delícia que só se encontra por lá.

O café comercializa garrafas, taças e também os queijos feitos na abadia, com maturação de 2, 6 e 12 meses. Ali dá para experimentar a Zundert, mais nova trapista da lista, produzida há alguns minutos de Westmalle, já na Holanda. No cardápio, opções vegetarianas e pratos exclusivos, feitos utilizando as cervejas como ingrediente.

Westmalle fica pertinho da Antuérpia e você pode se hospedar na cidade. Uma dica é visitar o Kulminator, bar de cervejas mais importante do mundo, com uma carta extensa de rótulos vintage, inclusive de cervejarias que nem existem mais.

Locais extras: na região também é possível conhecer:

  • Alvinne
  • De Dolle Brouwers
  • Halve Maan
  • Rodenbach
  • Sint-Bernardus
  • Struise Brouwers
  • Verhaeghe
  • Kulminator

DIA 3

Achel

A Achel é produzida na Abadia de Achel, na divisa com a Holanda. Quando eu falo que é na divisa, é na fronteira mesmo. A linha que divide os dois países, passa exatamente em frente a abadia.

De todas, é provavelmente a mais simples. Apenas um monge vive nela e há especulações que deve deixar de ser considerada trapista em breve. Não é possível entrar na abadia, mas a cervejaria pode ser vista do café. O local tem poucas opções de comida e serve Achel Bruine, Blond e a Extra.

O maior destaque do local é uma loja repleta de taças e rótulos a preços ótimos. Também dá pra encontrar garrafas de todas as trapistas da Europa, em especial Zundert e Tre Fontane. Vale passear pelas redondezas e tirar uma foto na divisa entre os países.

La Trappe

A 50 km de Achel, está a La Trappe. A abadia é bem grande e dá pra conhecer vários lugares dela. É a única trapista com tour guiado e visita a fábrica. São três tours diferentes, sendo que todos incluem a visita a fábrica. Detalhes de valores, e horários aqui https://www.latrappetrappist.com/en/visit-us/excursions/

O restaurante do local é um espetáculo a parte. O cardápio é refinado e maravilhoso. Lá comi o melhor carpaccio da minha vida. O cardápio muda a cada três meses e a variedade e qualidade dos pratos é imensa.

Carpaccio de carne de cervo. O melhor que já experimentei

Prestem muita atenção aos horários. Na última vez ficamos nos esbaldando no tap room, deixamos as compras para hora de ir embora e a loja, que fica em um prédio anexo ao restaurante, já estava fechada quando saímos. A loja funciona de terça a domingo das 12h às 18h e as segundas das 13h30 às 18h. O restaurante e tap room de segunda à sábado das 11h às 19h e aos domingos das 12h às 19h.

No tap room eles servem todos os nove rótulos produzidos ali, com destaque para a La Trappe Quadrupel Oak Aged. Trata-se de uma quadrupel que pode ter passado por barris de whisky, vinho, vinho do porto, brandy, conhaque ou novos barris de diferentes madeiras e níveis de tosta. Cada lote é um blend da cerveja envelhecida nesses barris. Ela é produzida desde 2010 e dá pra saber as características de cada batch lançado até hoje. https://www.latrappetrappist.com/en/our-trappist-ales/batchregister-la-trappe-oak-aged/

Locais extras: na região também é possível conhecer:

  • Het Anker (Gouden Carolus)
  • De Konninck
  • Duvel Moortgart
  • Zundert

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Colaborou: Fernanda Meybom